Interessante o que vem acontecendo
nas grandes cidades do país, principalmente Rio e S. Paulo. Um movimento que
primordialmente era contra o aumento no valor da passagem do transporte público
gerou tamanha repercussão negativa na mídia, que mais do que rapidamente taxou
as manifestações de “baderna” e “ondas de vandalismo”, resultou em ainda mais
revolta, agora pelos mais variados motivos: repressão policial, violência,
corrupção... Não, eu não concordo com protestos violentos, com vandalismo, mas
quando se mobiliza tanta gente, é inevitável que haja sempre os 10% de vândalos
que se juntarão à marcha apenas para ver o circo pegar fogo e nada mais.
O problema é a forma com que é encarada a manifestação pública neste
país pela mídia e pela população não engajada. Não tardou a surgirem
comentários do tipo “Que sentido faz um movimento que se chama ‘Passe Livre’,
mas que não respeita meu direito de ir e vir!” ou então, o meu favorito, do
nosso honrado Arnaldo Jabor, que disse que a revolta não tem propósito, que é
motivada pelo simples impulso subversivo e depredatório de jovens de classe
média. Assista essa pérola!
Li artigo sobre análise de
jornalistas europeus ao comportamento da nossa mídia às manifestações. O
principal ponto levantado por eles é que aqui não há interesse em saber o que
motiva a manifestação, mas sim do “saldo” das eventuais depredações de bens
públicos e privados e do trânsito, dos transtornos à população. Eles até dizem
“Na Europa todos sabem que a última das preocupações em dia de manifestação
deve ser com o trânsito”.
Pois bem, neste país a mídia instiga
um sentimento individualista, egoísta, na população com relação a protestos,
mostrando como são danosos a todos, como estão sendo violentos e mau
conduzidos. As pessoas passam, então, a reclamar do protesto pelo incômodo que
supostamente causa na vida de todos, mas se esquecem que aquilo tem uma
motivação, e uma motivação mais do que válida.
Na última postagem falei sobre a
falta de senso de coletividade dos brasileiros... bem, parece que o povo não é
o único culpado por essa deficiência. No final das contas, não somos um povo
completamente passivo, mas sim um povo egoísta demais para respeitar a busca
por melhores condições de outros.
Desta cadeira, inconformado e
desesperançoso de um lado e orgulhoso e otimista de outro, desejo a todos um
fim de semana com menos Rede Globo e Revista Veja, para o bem de vossa saúde
intelectual. Até a próxima postagem!

